Portugal a foz da Ibéria

 

  

J'ajouterai (le dire ne console pas de ce qui reste à dire) que l'une des grandes leçons que nous donne Emmanuel Lévinas, c'est que la philosophie - pour garder ce nom, si sottement crié - demande plus d’étude, plus de patience et plus de recherche, en un mot une exigence plus séreuse qu'aucune autre activité de savoir. Il faut se lever tôt pour cela, il faut veiller d'une vigilance qui surveille la nuit et même ne se laisse pas fasciner par l'autre nuit. Il faut enfin parler dangereusement et dangereusement garder le silence, tout en le rompant. C'est pourquoi la philosophie et le philosophe, sans s'imposer, sont ce qu'il y a de plus important, si nous savons rester auprès d'eux dans une proximité studieuse qui ignore la renommée.

(Maurice Blanchot)

 

 

 

À Indiferença

Padre António Vieira, zincogravura Sá da Costa. 

“Na cruz da religião nem o gosto tem uso,

porque não há indiferença para provar,

nem a vontade tem exercício», uma aplicação,

«porque não há vontade para não querer...»

(Padre António Vieira, Sermões, XII, §6, nº 185, pág.167)

 

 

Tampouco tem sentido o verso ousar,

E, muito menos, o uso d'uma interjeição.

Dunqüe, o moralizador é o esclavagista

D'uma simples liberdade de se ser;

Sendo a diferença, ou a distância (como quiserdes),

Entre o apático e o amnésico um ponto de vista,

Uma questão de termos, no sentido trivial do ver.

 

Qualquer destes (termos) implicam uma predisposição,

In-posta por factores alheios e, como vedes,

Toda a organização contraria e despista,

O senso espiritual, criando leis como razão de ser,

Ao ponto de ser material o constituir como nação...

 

Ao ser cabe as migalhas dos medos,

De toda aquela sujeição estúpida em que me esqueço,

Que existo, possuo, afirmo e não quero porque não!

Indiferença é a pedra de toque da libertação;

Mas eu, apático ou amnésico, sou por elementar necessidade,

D'um sobreviver na raridade que não é mais

Do que não ser chateado pela imposição da vontade dos demais.

(Diário de Yhonathan, Novembro de 1998)

***

 

 

Beggar:

«If Poverty be a Title to Poetry, I am sure nobody can dispute mine. I own myself of the company of beggars(...) I have a small Yearly salary for my Catches, and am welcome to a dinner there whenever I please, which is more than most poets can say»

(The Beggar's Opera by John Gay, Published: 1728)

 

 

 ”... na medicina hindu tradicional um conto de fadas, que era quem punha em jogo o seu problema particular, era oferecido a uma pessoa psiquicamente perturbada, para meditação. Admitia-se que, da contemplação da história, a pessoa perturbada seria levada a uma visão da natureza do impasse que vivia na altura e entreveria a possibilidade da sua resolução.e prossegue, concluindo “Os contos de fadas não têm a pretensão de descrever o mundo tal como ele é nem aconselham o que cada um deve fazer. Se o fizessem, o doente hindu seria levado a seguir um padrão de comportamento imposto – o que seria não só má terapêutica, mas o contrário da terapia. O conto de fadas é terapêutico porque o paciente encontra a sua própria solução, contemplando o que a história parece conter a seu respeito e aos seus conflitos interiores nesse momento da sua vida.

(Bruno Bettelheim, Psicanálise dos Contos de Fadas - Bertrand Editora, 1985, págs. 35, 36).

 

Na afirmação e conclusão de B. Bettelheim obtemos os seguintes estágios: pôr em jogo o problema particular; meditação e contemplação da história; visão da natureza; entrever a possibilidade da resolução sem pretensão de descrever o mundo tal como ele é; não aconselhar o que cada um deve fazer; nunca impor um padrão de comportamento; encontrar a sua própria solução contemplando os seus conflitos interiores.

(In Diário de Yhonathan 1998)

 

 

n Treneglwys there is a certain shepherd's cot known by the name of Twt y Cymrws because of the strange strife that occurred there. There once lived there a man and his wife, and they had twins whom the woman nursed tenderly. One day she was called away to the house of a neighbour at some distance. She did not much like going and leaving her little ones all alone in a solitary house, especially as she had heard tell of the good folk haunting the neighbourhood.

Well, she went and came back as soon as she could, but on her way back she was frightened to see some old elves of the blue petticoat crossing her path though it was midday. She rushed home, but found her two little ones in the cradle and everything seemed as it was before.

But after a time the good people began to suspect that something was wrong, for the twins didn't grow at all.

The man said: "They're not ours."

The woman said: "Whose else should they be?"

And so arose the great strife so that the neighbours named the cottage after it. lt made the woman very sad, so one evening she made up her mind to go and see the Wise Man of Llanidloes, for he knew everything and would advise her what to do.

So she went to Llanidloes and told the case to the Wise Man. Now there was soon to be a harvest of rye and oats, so the Wise Man said to her, "When you are getting dinner for the reapers, clear out the shell of a hen's egg and boil some potage in it, and then take it to the door as if you meant it as a dinner for the reapers. Then listen if the twins say anything. If you hear them speaking of things beyond the understanding of children, go back and take them up and throw them into the waters of Lake Elvyn. But if you don't hear anything remarkable, do them no injury."

So when the day of the reap carne the woman did all that the Wise Man ordered, and put the eggshell on the fire and took it off and carried it to the door, and there she stood and listened. Then she heard one of the children say to the other:

 

Acorn before oak I knew,

An egg before a hen,

But I never heard of an eggshell brew

A dinner for harvest men.

 

So she went back into the house, seized the children and threw them into the Llyn, and the goblins in their blue trousers came and saved their dwarfs and the mother had her own children back and so the great strife ended.

 In Brewery of Eggshells, Celtic Fairy Tales

Collected by Joseph Jacobs 

 

 FozIber

          Portugal a foz da Ibéria, dos resíduos, dos detritos, dos dejectos e de toda uma poluição de nuestros hermanos... y como los amamos...

Y como te amamos Castilla (?)! Facto historicamente consumado. Que os castelhanos não me interpretem mal – se o fizerem é normal –, mas não só de Castela a Ibéria é feita e se os hispânicos fecharem a torneira do precioso líquido – como é comum em tempo de seca –, que a ibéria p'ràqui dejecta, dejecta... mas Portugal torna-se a foz da seca.

          Foz do escoar dos alimentos, da tecnologia, por orbe do demo coube a esta foz o desembocar dos intermediários; da não produção que por aqui há muito, há muito reza o custo da mão-de-obra... Vos garanto que do demo não é obra pelo facto de onde não há, não existe... a não ser pelo fenómeno de ainda neste país se suportarem títulos como o de ministro ou afirmações como e para exemplo "já visto".

          Tal como no jardim do Éden havia um rio que se dividia em quatro outros, do mesmo modo, este jardim à beira mar plantado, que até tem as sete colinas – como Roma – a circundar a sua capital, possui também esses quatro rios; o da emigração que nascendo aqui por todo o lado se desdobra para norte, este, sul e oeste... diz-se que é por obra do diabo... multiplicando-se as rezas, os pedidos, os ofícios, as missas e todo um tipo de hábitos ritualísticos (multisseculares), implora-se num Intróito mais o afugentar de políticos e de ditos do que de Santanaz... Lúcifer ri-se porque este é o seu jardim e se tal não fosse como é?... Que diabo, quem os p'ràqui trouxe?

          Nasce, também, um rio (e é único) que corre para nordeste... desagua um pouco (?) por toda a Europa: o da droga. Aqui, neste país, o demo, complacente – este é um povo que consente –, concedeu um ou dois magnatas alquimistas, que equivocados por um qualquer cristianismo transformaram ouro em prata... salvaguardado está o depósito na Suíça... salvaguardado está o bocado para quem o há-de comer.

          Mas em tanta veemência terá que novidade haver... o rio da cultura continua a crescer, tal como o da identificação das raízes linguísticas (p. ex: o galaico-português, wuaca, wuaca, wuaca...); porém e como aqui tudo se paga caro, a enorme foz do analfabetismo, vos garanto, não é obra do demo mas do vento, porque as éguas lusitanas emprenham com o vento.

Neste estuário desagua, por fim, o quarto rio, o da espiritualidade nacional. Contém em si duas correntes uma ascendente e outra descendente conseguindo não gerar remoinhos... os próprios furacões e trombas de água se ausentam, deste foge o monstrengo das tormentas. É o rio da seca, o da nova nação de Bruxelas que nascendo em Lisboa vai até Lá (mi bemol em modo menor, por favor)... quais peixinhos de mãos abertas, sorrisos de xarrocos, exibindo ferocidade nas comunicações nacionais, comem... comem... e só não levam mais porque não podem; estas torrentes fedem.

 

          Foz é um termo intrinsecamente português, sinónimo de desembocadura (este último raramente usado pelo vulgo), possui uma legislação própria no Código Civil de Portugal art.º 380, nº 2, no qual se determina que as fozes são consideradas cousas do domínio público.

***

 

  

uando Deus se reuniu na assembleia dos Anjos, Lúcifer apresentou-se perante Ele, como era costume (Job 1:6,7). Deus dirigiu-se a Lúcifer e exclamou com calma e precisão: “Eu sei, Eu sei... Conseguiste o teu intento, alcançaste a queda dos meus filhos Adão e Eva assim como de toda a minha criação; mas, aviso-te de que instantaneamente em mim se formou um plano que não poderás vencer!”. Mordaz, Lúcifer inquiriu numa tónica de falsa sujeição: “O quê meu Senhor, se é que me é dado conhecer esse Vosso intento...” Deus retorquiu repentina e firmemente: “A Religião!”. Do fundo de Lúcifer ecoaram estridentes gargalhadas e a custo, por não poder conter o riso, respondeu: “Dessa já eu estava à espera meu Senhor! Por isso já tenho tudo projectado para aquilo a que denominei de 'A Organização’.”.

 

A razão de ser desta anedota – tal como me foi apresentada e explicada – deve-se à forma escravizante e sanguinolenta – à maldade e ao vil aproveitamento da organização –, tal como sob a razão duma pregação cristã (?) para a expansão duma fé e duma salvação, os cristãos se aproveitaram para dominar a Índia e, etc... seguramente existirão mais destas espalhadas pelo resto do mundo, dado que não foi a religião cristã a única a agir desta forma; esta vem desde a noite dos tempos das religiões – como instituições – e das organizações, independentemente de serem religiosas ou não.

(Por Sri Govinda a Yhonathan seu discípulo.)

 

A vida espiritual pode ser seriamente inibida pelo puro aspecto da devoção, quando esta se cinge à aceitação ine-questionável de qualquer ensinamento formulado seja ele de cariz religioso, político ou de qualquer outro campo do conhecimento, da atitude ou da actividade humana. É de tal modo esta atitude mental baseada num sentido de insegurança interior e sobre uma falha (mesmo ausência), duma individual experiência espiritual – exotérica e esotérica –, que lhe é implícito seguir uma autoridade e, ou, uma bíblia onde se possa ancorar. Nada pode ser mais prejudicial para o modo tanto exotérico como esotérico, mas e acima de tudo, para o caminho do entendimento-evolução (despertar) da consciência, para e através do dialogar com a alma, isto é, o comungar com o sangue da Terra porque a alma é o sangue, toda aquela genética que nos torna unos e, por tal – como se tal fosse necessário para o nosso entendimento –, iguais nos múltiplos aspectos que a sociedade, a Vida, implicam.

(In Diário de João Reis da Fonseca)

 

2000 E.C., ainda o Ano do Dragão

 

 

 

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